Segue abaixo a versão século XXI de Odisséia. Apenas um lembrete: qualquer semelhança com a realidade de alguém é apenas prova de que a vida amorosa não está fácil.
A ESPERA
O convite já estava garantido.
Faltava agora chegar o dia.
Por que O dia é sempre tão longe?
Entre terça e domingo havia uma eternidade.
No sábado, concluiu que nenhuma roupa lhe caía bem.
A conta bancária? No vermelho, como de costume.
Mas uma blusinha nova se fazia necessário.
“É um investimento. É um investimento”, pensava tentando justificar o gasto de um dinheiro que não possuía.
Não foi a nenhum shopping, comprou ali mesmo, pelo seu bairro, numa daquelas lojas populares.
Ok, daremos o crédito. Foi na Cyticol.
Depois de muito garimpar, encontrou.
Uma blusinha simples, lisa, sem estampas, exatamente como ela prefere.
Perfeita para a ocasião.
O preço?
Um convite ao consumo
R$ 7,99.
Um belo investimento.
Tinha outra, igualmente atraente, mas R$ 15.
Uma fortuna naquele contexto!!!
Levou mesmo a mais barata.
Chegou em casa, experimentou mais uma vez.
Virou de um lado, virou de outro.
E chegou a conclusão que, contra as gordurinhas, o preto funciona mais que aqueles chás horrorosos!!!
Bastava agora esperar o sábado passar. De preferência, bem rápido.
A PREPARAÇÃO
Enfim, o domingo. Ah, glorioso domingo...
Banho,
creme,
roupa,
espelho,
cabelo,
espelho,
maquiagem,
espelho.
Achou que estava apresentável. E que poderia dar certo.
Sabia que a beleza não era seu forte.
Mas é sempre preciso caprichar no visual.
Podia mesmo era contar com a sua simpatia,
seu senso de humor
e sua bagagem literária (que em um samba, não tinha certeza se contava muito ponto).
A CHEGADA
Fez hora para não chegar muito cedo e parecer uma desesperada.
Pegou o ônibus e desceu no local indicado.
Entrou.
Já havia bastante gente.
Algumas pessoas conhecidas.
Sorri.
Cumprimenta.
Abraça.
Beijinhos, um de cada lado.
Avança mais um pouco,
Pensa: “Cadê aquele infeliz? Será que ele não vem?”.
Avistou pessoas que gostava.
Resolveu ir sentar a mesa delas.
Vai de encontro às meninas.
O ENCONTRO
E na mesa ao lado, lá estava ele.
Exatamente como ela lembrava.
Exatamente como ela esperava. Sorri para ele, que retribui o gesto.
Ocorreu um breve e chato diálogo:
- Oi, tudo bem?
- Tudo bom. E você?
- Tudo bem.
- Quanto tempo.
- Pois, é. (qualquer semelhança com a música do Paulinho da viola não é mera coincidência, foi quase isso)
Aquele diálogo demonstrava a formalidade que havia entre eles.
Ela esperava ter algo mais a partir daquele dia.
Para isso pensou: “Rápido, alguma coisa interessante para falar. Rápido”.
Nada surgiu de interessante.
E aí concluiu que seria melhor ficar quieta.
Sentou.
Não na mesa dele. Ao lado. Para ficar perto da presa.
Assim ocorreria a aproximação e seu plano da conquista.
Ela o observava:
A PRESA
Ele levantou, fazia a social como ninguém.
Foi capaz de conversar com todas as pessoas da festa.
Pulava de um grupo para o outro.
A CAÇADORA
Ela? Estática na sua cadeira.
E bebendo, e bebendo.
Precisava daquelas cervejas.
Precisava relaxar e tirar da cabeça a percepção de que estava,
mais uma vez,
sendo solenemente esnobada pelo garoto.
Encheu o saco,
levantou,
bebeu mais,
foi ao banheiro,
mais uma cerveja,
encontrou com uns amigos,
mais alguns goles.
A cerveja estava tão geladinha...
Resolveu voltar.
A OUTRA CAÇADORA
No entanto, nossa heroína se enganou
Se ela saia à caça no domingo de jogo do Flamengo (com letra maiúscula!!)
Outra mais desesperada também saiu.
Para piorar, estava valorizando os dotes que a nossa heroína não tinha.
Quem queria saber do intelecto àquela altura?
O caríssimo não precisava disso naquele momento...
A SURPRESA
Após observar a outra mulher, nossa heroína achou que finalmente o bem venceria o mal.
Ele estava sentado na mesa dela.
Nesse momento, o mago Paulo Coelho é reivindicado: “É um sinal. Quando você quer muito uma coisa, o mundo conspira a seu favor”.
A SURPRESA MAIOR AINDA
Opa, também havia um ser estranho lá.
Ou seria efeito da bebida?
Não, realmente havia uma mulher desconhecida.
Linda, ao lado dele, conversando com ele.
Bebeu os últimos goles daquela que seria a última latinha do dia.
Mão na coxa.
Olhos nos olhos.
Intimidade.
Tudo que ela nunca tivera com ele.
Era demais para ela.
Resolveu não ficar olhando aquela cena lamentável.
Mais algumas voltas,
mais alguns papos furados,
sem sentido,
sem interesse.
O MANO A MANO
Após beber, ver e refletir.
E pensar novamente, viu que estava ao lado dele... e dela também.
Observou:
Um abraço,
um beijo.
E a formação de um bonito casal.
A DECEPÇÃO
Após as cenas mais horrendas de sua vida,
Percebeu que era hora de ir embora.
Se despediu,
sorrindo,
como sempre.
Saiu o mais rápido que pode.
O CHORO
No ônibus, desabou.
Ligou, a cobrar, (conta no vermelho) para as amigas.
Chorou.
Ficou com raiva.
Olhou para a blusinha.
Ficou com mais raiva ainda.
Pensou que poderia ser pior:
e se tivesse comprado a mais cara?
Estaria ainda mais indignada.
O FIM
O domingo deprimente acabou
O Flamengo perdeu,
A chuva começou,
O sonho acabou,
E o gato subiu no telhado.
O que fazer? Pensou....
Naquele momento não havia o que fazer,
Para quem ligar, onde beber
Voltou para a casa
EPÍLOGO
Essa história não acabou.
A odisséia do amor recomeça a partir do momento que um acaba, principalmente se foi platônico.
A nossa heroína, apesar de lutar contra, sabe que só o amor salva.
Salva o sábado, o domingo, o feriado e todos os dias da semana
Salva o porre da festa, salva o time perdido
Salva a falta de grana e a dor no braço
Como ela tem isso tudo, precisa arrumar outro amor urgente.
Para o próximo final de semana chegar faltam apenas 7 dias....

4 comentários:
Sambinha, Paulo Coelho, Flamengo... acho que saquei.
Não fique triste, "Odisseuza", anti-heroína do amor. Há outros dotes que vossa mercê ostenta que podem lhe garantir conquistas futuras.
Mas lembre-se que, apesar dos percalços, haverá um "Penélopo" esperando ao fim da jornada.
Não saquei, não, mas desconfio! hehehe
Penélopo e Odisseuza? pô, que casal mais brega! Imagine o convite de casamento desses dois, que coisa horripilante.
Se a amiga da "A Odisséia" tivesse comprado uma blusinha com mais glamour, quem sabe ñ teria dado certo essa investida! Blusinha da Citycol para um encontro tão esperado, NÃO ROLA!!! Rs
hum..
acho que tentar adivinhar quem foi nao adianta..todo domingo tem uma odisséia dessas acontecendo em algum almoço por aí...
(oh meu deus...começo a pensar que o meu amado pode estar sendo cobiçado por alguém...será que em almoço de família rola isso?)
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